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Albacora Lage: Quando a Estatística Esquece de Contar Gente

há 13 horas
6 min de leitura

Os dados e análises apresentados a seguir foram apurados junto a Wilson Santos, Engenheiro Industrial Químico com ampla trajetória no setor pesqueiro e industrial brasileiro. Ao longo de 25 anos, atuou como Diretor Industrial da Coqueiro/Quaker, participando diretamente de processos produtivos, gestão industrial, desenvolvimento de mercados e avaliação de cadeias produtivas ligadas à pesca e ao processamento de pescado.

Atualmente, Wilson Santos atua na área de consultoria por meio da WS Consultoria, desenvolvendo estudos, análises técnicas e avaliações econômicas voltadas ao setor pesqueiro nacional. As informações apresentadas neste comentário têm como base sua experiência profissional e sua análise dos dados declarados ao ICCAT, buscando contextualizar os impactos econômicos e sociais da captura de Albacora-Laje para o Brasil e sua comparação com outras nações atuantes nessa pescaria.


Agora vamos ao nosso comentário


Nossa conclusão depois de uma boa conversa com o Sr. Wilson Santos: que por trás de cada tonelada declarada à ICCAT, existe um detalhe que os relatórios frios insistem em não mencionar: gente. Vidas, empregos, estaleiros, famílias. E é justamente aí que a comparação entre Brasil e Gana no setor de captura da albacora Lage expõe uma distorção que os números, sozinhos, tratam de disfarçar muito bem."


A análise coloca o Brasil, em terceiro lugar, atrás de Gana — país africano que ostenta a maior captura declarada. Até aqui, nenhuma novidade: é só ler a tabela. O problema começa quando se tenta entender quem está por trás desses números, e a resposta incomoda quem prefere estatística sem rosto.


ICCAT -Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico


Capturas médias (2022-2023-2024) declaradas à ICCAT


Números redondos, tabela bonita, ranking definido. Só que ranking de quê, exatamente? De toneladas — não de gente que vive disso, não de comunidade que depende disso, não de economia que gira por causa disso. E é aí que a conversa fica interessante — e o detalhamento por método de pesca deixa a coisa ainda mais reveladora.


Capturas Albacora Lage por métodos de pesca


Reparem: 23.366 toneladas ganesas — 91% de toda a captura do país — saem de cerco industrial. Zero cardume, zero espinhel. Já o Brasil faz o inverso: 13.140 toneladas, o grosso da captura nacional, vêm justamente do cardume — o método mais artesanal, mais distribuído, mais dependente de mão de obra embarcada. Cerco, no Brasil, é quase decoração: 279 toneladas, praticamente irrelevante perto do modelo ganês.


Comentários — ou: quem realmente está no mar

Brasil: somando apenas o cardume — 250 barcos declarados — e projetando 8 pescadores por embarcação, chega-se a 2.000 pescadores diretamente embarcados. Gente de verdade, em barco de verdade, trabalhando o ano inteiro.

Gana: 17 barcos de cerco declarados, 30 tripulantes cada. Total: 510 pescadores. Menos de um quarto do contingente brasileiro — para uma captura maior. Façam as contas, porque vários países que compõem ICCAT - Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico, parece não fazer questão de destacar essa proporção.


As embarcações — madeira contra aço, artesanato contra escala industrial

Brasil: barcos de aproximadamente 16 metros, de madeira, construídos regionalmente, no Brasil, pelo Brasil. Movimenta estaleiro artesanal, exige manutenção constante, sustenta ofício. É indústria naval de verdade, só que pequena, pulverizada, invisível nos relatórios.

Gana: embarcações de 50 a 70 metros, saídas de grandes estaleiros fora do país. Tecnologia importada, escala industrial, e nenhum vínculo com construção naval local. Eficiente? Sem dúvida. Gerador de economia doméstica de base? Discutível.


Armadores — ou quem realmente embolsa o resultado

Brasil: frota extremamente pulverizada. Mais de 80 pequenos armadores empreendedores espalhados por regiões que vivem com escassez crônica de capital. Dinheiro entrando, mesmo que em doses pequenas, onde ele mais faz falta.

Gana: modelo de joint venture — 50% empresas locais, 50% grupos estrangeiros, principalmente da Coreia do Sul, China e Taiwan. Ou seja: metade do resultado sai do continente antes mesmo de esfriar o peixe.


Valores financeiros projetados — Base 1ª comercialização

Gana: preço atrelado ao mercado internacional — hoje, cerca de US$ 2.000/t para peixe acima de 20 kg. Aplicando a captura média trienal (25.720 t) e o dólar a R$ 5,20, chega-se a R$ 267 milhões — valor que entra, e majoritariamente sai, dentro das próprias joint ventures.

Brasil: preço desconectado do mercado internacional. Considerando apenas 13.140 t do cardume, a R$ 8/kg, o resultado é R$ 105 milhões — injetados de forma imediata, principalmente, na região Nordeste. Sem intermediário estrangeiro para dividir a conta.


Informes declarados no ICCAT – Março de 2026


Gana declara 17 barcos para toda a sua frota atuante em atum e afins. Todos de cerco, todos acima de 40 metros. Ponto final. O Brasil, por sua vez, declara 412 embarcações espalhadas em sete categorias diferentes — do cerco de pequeno porte ao cardume, passando por espinhel, isca viva e surf.


Relação Capturas Albacora Lage por Número de Barcos Reportados — Brasil considerando apenas pesca de Cardume



Cada barco ganês de cerco produz, em média, 1.513 toneladas por ano — quase 30 vezes mais do que cada barco brasileiro de cardume, que fica em módicas 53 toneladas. Só que "eficiência por barco" não é sinônimo de "benefício social por tonelada".


A seguir, as fichas oficiais de capacidade de frota apresentadas por Gana e Brasil à ICCAT — reproduzidas na íntegra, em página no formato paisagem, para preservar todas as colunas do documento original.



Dezessete cercadores acima de 40 metros. Não dezoito, não vinte. Dezessete. De 2018 a 2026, ano após ano, sem variação — enquanto a capacidade pesqueira total soma, ininterruptamente, mais de 22 mil unidades. Todas as demais categorias estão classificadas como "no aplicable". Não é frota diversificada: é frota inexistente fora da categoria industrial. A cota inicial sobe de 4.250 toneladas em 2018 para 4.445,85 em 2026 — crescimento tímido, quase decorativo, diante de uma capacidade pesqueira declarada muito maior. Margem de manobra, e bastante dela, para operar acima do que os números "oficiais" sugerem à primeira vista.



Enquanto Gana congela em 17 barcos gigantes por quase uma década, a frota brasileira cresce organicamente ano após ano em praticamente todas as categorias: longliner entre 20 e 40 metros salta de 38 para 50 embarcações, longliner menor cresce de 18 para 35, e a frota de sardinha — associada à captura do cardume — passa de 227 para 250 barcos. Some tudo, e o total de 412 embarcações brasileiras aparece anotado, à mão, no rodapé do próprio documento — como se nem a formatação padrão do formulário estivesse preparada para acomodar uma frota daquele tamanho.


E a cota? Também cresce: de 6.043 toneladas para 6.825,37 toneladas entre 2020 e 2026. Só que essa cota está distribuída entre centenas de barcos e dezenas de armadores independentes — o oposto exato da concentração ganesa, onde a mesma lógica de cota serve a um punhado de joint ventures.


Dezessete barcos gigantes de um lado. Quatrocentos e doze embarcações, de todos os tamanhos e artes, do outro. A ICCAT recebe as duas fichas, lado a lado, no mesmo formulário padronizado — como se fossem comparáveis. Não são. Uma é indústria pesada com nome de frota; a outra é uma economia inteira flutuando sobre madeira.


A tonelada é a mesma. O impacto social, evidentemente, não.

Diante dos números apresentados, fica uma reflexão inevitável. A delegação brasileira que representará o país na próxima reunião da ICCAT tem a obrigação de se debruçar profundamente sobre essas informações, avaliando não apenas os volumes de captura, mas principalmente os impactos econômicos, sociais e de geração de renda que a atividade proporciona ao Brasil.

Os dados demonstram que, por trás das estatísticas, existe uma cadeia produtiva que envolve milhares de pescadores, dezenas de pequenos armadores, estaleiros artesanais, fornecedores e comunidades inteiras que dependem diretamente dessa atividade. Ignorar essa realidade ou tratá-la como um detalhe secundário seria um grave equívoco.

Espera-se que a representação brasileira esteja focada na defesa dos interesses legítimos do país, sustentada por dados, ciência e pela realidade socioeconômica da pesca nacional, e não em fazer média com outras delegações ou atender expectativas de organizações não governamentais internacionais que, muitas vezes, desconhecem as particularidades da atividade pesqueira brasileira.

A ICCAT é um fórum técnico de gestão pesqueira, e é exatamente nesse ambiente que o Brasil deve atuar com firmeza, conhecimento e responsabilidade, defendendo aqueles que geram emprego, renda e desenvolvimento a partir da pesca legal e regulamentada.

Os números estão à mesa. Agora, aguardamos posicionamentos à altura da responsabilidade que a delegação brasileira assumirá perante o setor pesqueiro nacional.

Aguardamos!



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