"Explorar a Margem Equatorial é oportunidade para o país avançar"
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Presidente da FIEPA, Alex Carvalho , fala ao Diário do Pará sobre os debates realizados durante a Amazon Energy, evento que discutiu os entraves para a exploração petrolífera na região e os benefícios sociais e econômicos que o projeto pode trazer para a população.
Ao final do encontro, foi elaborada a Carta de Belém, documento que consolida os principais consensos construídos ao longo do evento.
"A riqueza dos recursos naturais precisa produzir desenvolvimento permanente. Royalties não podem servir apenas para ampliar despesas correntes. Precisam financiar educação, ciência, infraestrutura, inovação, adaptação climática e diversificação econômica. Declarou Alex Carvalho Presidente FIEPA
AMAZON ENERGY
A confirmação de que o próximo leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP), previsto para outubro deste ano, não incluirá blocos exploratórios da Margem Equatorial localizados nas costas do Pará, Amapá e Maranhão colocou novamente a região no centro do debate nacional sobre energia.
O tema esteve entre as discussões do Amazon Energy 2026, realizado nesta semana, em Belém, pela Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), por meio da FIEPA Redes. Durante dois dias, representantes dos governos federal, estaduais e municipais, da indústria de petróleo, gás, mineração e energia, universidades, centros de pesquisa, especialistas e entidades empresariais discutiram os desafios da segurança energética, da transição para uma economia de baixo carbono, da infraestrutura e do desenvolvimento industrial da Amazônia.
Nesta entrevista, o presidente da FIEPA, Alex Carvalho, faz um balanço das discussões e defende que a exploração responsável da Margem Equatorial representa uma oportunidade histórica para transformar a economia do Norte do país.
Que sinal essa decisão da ANP transmite ao mercado?
Essa decisão amplia uma percepção de insegurança regulatória que já preocupa o setor produtivo há muitos anos. A exploração de petróleo trabalha com horizontes de longo prazo. Antes de uma plataforma chegar ao mar, existe uma cadeia inteira de investimentos que começa a ser estruturada: pesquisas geológicas, contratação de fornecedores, qualificação de trabalhadores, infraestrutura portuária, logística, tecnologia e inovação.
Quando uma fronteira exploratória deixa de integrar uma oferta permanente por questões regulatórias, o mercado naturalmente passa a enxergar aquela região como um ambiente de maior risco. E isso tem consequências concretas.
Durante o Amazon Energy, foi apresentado um estudo do Observatório da Indústria da FIEPA mostrando que, apenas no Pará, a Margem Equatorial deve representar cerca de 52 mil empregos formais e um crescimento de aproximadamente 6,2% no PIB estadual, equivalente a R$ 10,7 bilhões adicionais para a economia paraense.
Em âmbito nacional, as projeções apontam um potencial de aproximadamente 10 bilhões de barris, geração de até 125 mil empregos no pico da atividade e arrecadação superior a R$ 1 trilhão ao longo do ciclo exploratório.
Quando decisões se prolongam indefinidamente, o país posterga todos esses benefícios.
Essa preocupação apareceu de forma recorrente durante o evento. O setor produtivo considera, então, que o Brasil está perdendo oportunidades?
Sem dúvida. Hoje, a energia voltou a ocupar uma posição ainda mais estratégica na economia mundial. Depois das crises internacionais recentes, segurança energética deixou de ser apenas um tema econômico e passou a ser também uma questão de soberania nacional.
O Brasil possui uma das novas fronteiras exploratórias mais promissoras do mundo e, ao mesmo tempo, convive há mais de doze anos com um ambiente de indefinição. Enquanto discutimos, outros países seguem atraindo investimentos, ampliando reservas e fortalecendo suas cadeias industriais. O mundo não espera. O capital procura previsibilidade, e previsibilidade é um ativo competitivo.
Ao longo do Amazon Energy, ficou evidente que a discussão sobre a Margem Equatorial deixou de ser apenas um debate sobre petróleo. Estamos falando da possibilidade de criar uma nova cadeia industrial na Amazônia. Esses investimentos movimentam a indústria naval, a metalmecânica, a construção civil, a engenharia, a logística, as telecomunicações, a tecnologia digital, a inteligência artificial aplicada às operações offshore, a pesquisa científica, as universidades e a qualificação profissional.
Os próprios estudos apresentados durante o evento mostram que a implantação dessa cadeia exigirá ampliação da infraestrutura portuária, novas bases logísticas, serviços especializados e fornecedores locais. Isso significa industrialização, inovação e geração de renda. Quando enxergamos apenas o poço de petróleo, estamos vendo apenas uma pequena parte da transformação econômica que pode ocorrer.
Foi apresentada uma comparação entre o litoral paraense e outras regiões que passaram por grandes ciclos de desenvolvimento. O que esses exemplos mostram?
Mostram que o desenvolvimento não acontece automaticamente, mas pode acontecer quando existe planejamento.
O Pará já viveu isso com Carajás, por exemplo, que hoje possui o maior PIB per capita do Estado, superior a R$ 215 mil, e lidera a arrecadação nacional da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), com aproximadamente R$ 1,2 bilhão.
Parauapebas deixou de ser uma pequena vila agrícola para se tornar o segundo maior PIB do Estado, com PIB per capita próximo de R$ 99 mil e receitas próprias superiores a R$ 3 bilhões por ano.
Esses números mostram como grandes investimentos podem transformar economias locais quando existe infraestrutura, planejamento e fortalecimento da cadeia produtiva.
Ao mesmo tempo, o estudo apresentado no Amazon Energy revela outra realidade. Grande parte dos municípios do litoral paraense que poderão ser beneficiados pela Margem Equatorial continua apresentando alguns dos menores indicadores socioeconômicos do Estado, com IDHM entre 0,515 e 0,609, PIB per capita entre R$ 11 mil e R$ 18 mil, forte dependência do Fundo de Participação dos Municípios e do emprego público.
Há quem veja uma contradição entre abrir uma nova fronteira petrolífera e defender a transição energética. Como o senhor responde?
A experiência internacional mostra exatamente o contrário. Os países que lideram investimentos em energia limpa continuam produzindo petróleo e gás. O que muda é o destino dessa riqueza. Ela financia pesquisa, inovação, tecnologias de baixo carbono e diversificação da matriz energética.
Não existe transição energética sem capacidade de investimento. O Brasil reúne uma condição privilegiada porque possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do planeta. Isso nos permite conduzir uma transição equilibrada, sem abrir mão da segurança energética nem da competitividade industrial.
Um dos pontos mais enfatizados no evento foi a insegurança regulatória. O que exatamente preocupa o setor produtivo?
É importante esclarecer que ninguém está defendendo flexibilização ambiental. O setor produtivo defende um licenciamento rigoroso, técnico e transparente. O problema é quando o processo deixa de oferecer previsibilidade.
Mais de doze anos de indefinição produzem efeitos econômicos importantes. As empresas deixam de investir. Fornecedores deixam de se estruturar, profissionais deixam de ser qualificados e universidades deixam de desenvolver pesquisas.
Segurança jurídica significa justamente criar um ambiente em que as decisões sejam técnicas, transparentes e ocorram em prazo compatível com investimentos dessa magnitude.
A Petrobras iniciou recentemente a perfuração do poço Morpho. Isso representa uma mudança de cenário?
Eu diria que representa um avanço importante. Mas precisamos compreender que um único poço não encerra uma campanha exploratória. Será necessário perfurar novos poços para avaliar reservas e confirmar o potencial econômico da região.
Durante o Amazon Energy, houve uma preocupação muito clara com a continuidade dessas autorizações. Sem elas, existe risco de desmobilização de sondas, embarcações, fornecedores, bases logísticas e profissionais especializados. É justamente esse ciclo que precisa ser preservado.
Ao final do encontro foi elaborada a Carta de Belém. Qual considera ser o principal legado do documento?
O principal legado talvez seja mostrar que existe convergência. Estiveram presentes representantes do Pará, Amapá e Maranhão, além de outros estados, como o Rio de Janeiro.
Ao longo dos debates, percebemos que diferentes instituições compartilham uma visão semelhante. A Carta consolida prioridades que apareceram praticamente em todos os painéis: maior segurança jurídica, previsibilidade regulatória, continuidade das campanhas exploratórias, fortalecimento da cadeia regional de fornecedores, investimentos em ciência, tecnologia, inovação, qualificação profissional e infraestrutura.
Também propõe uma política nacional para a Margem Equatorial, integrada às agendas de logística, indústria, defesa, desenvolvimento regional e transição energética.
E há uma mensagem importante: petróleo, gás, mineração e energias renováveis não são agendas concorrentes. Elas podem e devem caminhar juntas.
A Carta também propõe a criação de fundos soberanos estaduais e municipais. Qual é a lógica dessa proposta?
A riqueza dos recursos naturais precisa produzir desenvolvimento permanente. Royalties não podem servir apenas para ampliar despesas correntes. Precisam financiar educação, ciência, infraestrutura, inovação, adaptação climática e diversificação econômica.
Durante o evento, discutimos exemplos internacionais e também brasileiros. Macaé, no Rio de Janeiro, talvez seja um dos mais conhecidos. A cidade utilizou parte das receitas do petróleo para fortalecer a infraestrutura, desenvolver um polo tecnológico e consolidar uma cadeia industrial ligada ao setor de energia.
Hoje, recebe cerca de R$ 1,44 bilhão por ano em royalties e abriga um dos maiores ecossistemas offshore do país.
Depois de dois dias de debates, qual é a principal mensagem que o Amazon Energy deixa para o Brasil?
O Amazon Energy mostrou que existe espaço para um debate técnico, baseado em evidências e livre de polarizações.
A Amazônia não quer escolher entre desenvolvimento e conservação. Ela quer demonstrar que é possível conciliar responsabilidade ambiental, inovação, competitividade e inclusão social.
No fundo, a grande pergunta que o evento deixa é muito simples: o Brasil pretende transformar a Margem Equatorial em uma oportunidade para reduzir desigualdades, fortalecer sua segurança energética e impulsionar a industrialização da Região Norte, ou continuará adiando decisões estratégicas enquanto outros países avançam?
Essa é a decisão que está colocada para o país.













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