Abipesca -10 anos
- Setor Pesqueiro e Náutico

- 5 de jan.
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Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Pescados - Abipesca, em entrevista realizada pela Seafood brasil, faz um balanço da entidade, critica o modelo de gestão compartilhada do MPA e MMA/Ibama e aponta os caminhos do futuro da indústria.

01 - A lista da Conabio, indeferimento de LPCOs por questões ambientais e outras decisões regulatórias têm gerado mais insegurança jurídica no setor. Como você avalia este momento institucional?
O IBAMA está indeferindo praticamente todos os LPCOs do Brasil para a pesca de badejo. Mesmo quando a pesca ocorre em áreas autorizadas, como regiões tradicionais da pesca de pargo, a anuência é negada. O resultado é que tudo precisa ser judicializado. Tudo. Isso gera um custo altíssimo e um desgaste enorme para o setor produtivo.
Na minha avaliação, esse problema tem origem clara. Quando o grupo de trabalho concluiu o projeto de decreto presidencial e aceitou o modelo de gestão compartilhada, colocou-se ali uma pedra no caminho do setor. Essa gestão não é um fator de proteção; ela se transformou em um obstáculo concreto para toda a produção e para a capacidade de desenvolvimento da pesca no Brasil.
O que a gente vive hoje é um ambiente de profunda revolta. Empresários e trabalhadores sofrem diariamente com decisões arbitrárias, tomadas sem explicação técnica consistente. Ao mesmo tempo, vemos o número de pescadores com seguro-defeso saltar de cerca de 682 mil, com cadastros revisados e auditados, para algo em torno de 2,8 milhões. Isso evidencia uma distorção enorme.
O setor privado acaba sendo tratado como pária. A insegurança jurídica é permanente, e ainda precisamos lidar com uma visão preconcebida de que todo empresário é vilão. É um cenário que exige autocontrole psicológico diário para continuar produzindo e investindo no Brasil.
02 - É neste cenário crítico em que a Abipesca completa 10 anos. Que benefícios a entidade proporcionou ao setor desde sua criação?
A Abipesca criou um ambiente de direcionamento para a indústria de processamento de pescados. Ela se tornou a casa da indústria, que é quem desbrava mercado, cria produto, desenvolve hábito alimentar e faz o pescado, seja da pesca ou da aquicultura, chegar à mesa do consumidor em um país continental como o Brasil e também ao mercado internacional.
Quando a entidade surgiu, os empresários estavam completamente à deriva. Eu costumo dizer que a Abipesca foi um bote salva-vidas. Com o tempo, esse bote se transformou em um navio, com condições reais de levar seus tripulantes a locais mais seguros e mais distantes.
A Abipesca surge exatamente da necessidade de criar um ambiente institucional seguro, técnico e profissional.
03 - A atuação institucional da entidade teve vários marcos ao longo dos 10 anos. Quais deles você mencionaria?
O primeiro grande marco foi a Abipesca conquistar um assento oficial no ICCAT [Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico]. Foi a primeira entidade não governamental a participar desse fórum internacional e a trabalhar de mãos dadas com o governo.
Outro marco fundamental foi o combate à fraude. A Abipesca adotou um modelo muito forte de compliance e ética, que nos transformou na primeira entidade a expulsar associados que não cumpriam essas regras. Combater fraudes, adição de água e troca de espécie sempre foram um ponto de união dentro da entidade. Nós mostramos ao setor que o maior ativo é a honestidade e que o espertalhão não tem mais espaço.
O primeiro summit internacional, realizado em Brasília em 2018, foi extremamente disruptivo. Talvez tenha sido até à frente do seu tempo. Ele trouxe o mundo para debater o setor com o Brasil.
E, por fim, assumir a presidência da Câmara Setorial foi decisivo [Nota: em 10 de dezembro, Eduardo Lobo foi reconduzido oficialmente à presidência da Câmara Setorial da Indústria de Pescados do Ministério da Agricultura e Pecuária, para um novo mandato de dois anos]. A Abipesca propôs a criação ao então ministro Blairo Maggi. Foi uma luta para criar essa Câmara. Depois, naturalmente, a presidência veio para a entidade. A partir disso, conseguimos aglutinar todas as demandas do setor em um fórum oficial e ampliar de forma significativa a interlocução com os órgãos que criam normas e regras para a cadeia do pescado.
04 - Em que direção crescerá a Abipesca nos próximos 10 anos?
A Abipesca começou com seis fundadores. Depois, em um determinado momento, chegou a ser uma entidadede quatro. Com o tempo, passou para dez e, gradualmente, se estabilizou com um número que oscila entre 30 e 35 associados. Esse sempre foi o nosso target.
Nós temos um limitador muito claro: não pretendemos ultrapassar 40 associados. Para crescer além disso, seria necessária uma reestruturação muito grande da equipe, da estrutura física e dos processos internos, para garantir o
mesmo nível de atendimento, cuidado e serviço que oferecemos hoje. Esse modelo enxuto é estratégico justamente para preservar qualidade, proximidade e eficiência na atuação institucional.
05 - Com esta limitação, como a entidade irá expandir seu campo de atuação e busca de resultados institucionais para o setor?
Eu projeto a Abipesca ficando ainda mais robusta. A Abipesca faz 10 anos e ganha a maturidade de uma entidade antiga, respeitada, mas ela se renova e tem ânimo deum adolescente. Então, está só começando. Um dos próximos passos é a criação de um conselho de notáveis, com pessoas de notório saber político, financeiro e de negócios, para assessorar os executivos da entidade.
Também queremos ampliar convênios com entidades internacionais, não só nos Estados Unidos e na Europa, mas principalmente na Ásia, além de participar de feiras que não são as convencionais. A ideia é levar o pescado brasileiro para mais mercados, em alinhamento com a ABPA [Associação Brasileira de Proteína Animal, que reúne a avicultura e suinocultura] e a Abiec - Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, que congrega a cadeia da carne bovina], fortalecendo a presença da proteína brasileira no exterior.
A partir de 2026 e 2027, a Abipesca vai atuar muito fortemente na aquicultura, focada do peixe vivo para frente. Não nos envolveremos em temas de manejo, mas na proteção e no fomento do setor [industrial de produtos da aquicultura]. Em 2027, queremos liderar uma grande campanha de aumento do consumo de pescado brasileiro, junto com o setor privado e o governo. Mas tudo isso depende do cenário econômico. Estamos muito incomodados com juros de 15%, que inibem o investimento. Não adianta fomentar consumo se a população não tem poder de compra ou se isso gerar desabastecimento e inflação no setor.


















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